27 de novembro de 2012

Picão Branco

Por Adrian Rupp


Galinsoga quadriradiata
Galinsoga parviflora



















Nomes populares:
picão-branco, botão-de-ouro, fazendeiro, brinco-de-princesa[1], erva-da-moda[1], picão-bravo[1], galinsoga de flores pequeñas (Espanhol)[1], soldado galante (Espanhol)[1],
Inglês: quickweed, gallant soldier, smallflower galinsoga, soldiers of the queen, galinsoga, guasca[1]
Colômbia: Guascas, em Cundinamarca e Boyacá. Pajarito, em Sogamoso e oriente de Boyacá.[2]
Argentina: Albahaca silvestre, saetilla.[2]
Peru e Chile: Pacoyuyu fino.[2]
México: Estrellita, mercurial.[2]
Zulu: ushukeyana[1]
galinsoga comune (Italiano); klein knopkruid Holandes)[1]
Franzosenkraut, kleinblütiges Knopfkraut , Unkraut(Alemão)
haret korststrale (Dinamarques) galinsoga glabre (Francês)[1]
galinsoga (Tagalogue - Filipinas)[1]
mamboleo (Tanzania)[1]
nwakhosa, sekogelamaroka (África do Sul)[1]

Nomes científicos:[2]
Galinsoga parviflora Cav.
Wiborgia parviflora (Cav.) Kunth
Stemmatella sodiroi Hieron.
Adventina parviflora Raf.
Galinsoga semicalva (Gray) H.St.John & White
Galisonga quinqueradiata Ruiz & Pav.
Tridax parviflora

Espécie de uso semelhante:[1]
Galinsoga quadriradiata Ruiz & Pav.

Germinação: Suas sementes germinam do outono à primavera.[3]
Ciclo: Apresenta ciclo curto de até 50 dias.[3]

Onde ocorre: Considerada planta invasora de solos cultivados, presente em todas as culturas anuais e perenes, além de pastagens e jardins.[3] Considerada planta indicadora de terras cultivadas com nitrogênio suficiente e falta de cobre.[5]

Presente no clima tropical e subtropical.[1]

composição centesimal:
(base úmida – g/100g): umidade (89); proteínas (4); lipídios (0,5); carboidratos (5,29); cinzas (1,74); fibra (1,24);
E mineral (base seca – mg/100g): Ca (162); P(38); Fe (270); Mg (681); Mn (44); Na (36); Cu (3); Zn (14); energia (41 kcal/100g)[1]
Destaque para a quantidade de zinco, proteína e magnésio.[1]

composição nutricional:
vitamina C (54 mg/100g); proteína (5,0%); fibra crua (1,5%); lipídios (0,7%);
Ca (154 mg/100g); Fe (2,8 mg/100g).[1]

Atividade antioxidante: 76% (base úmida)[1]


Uso Alimentar[1]

Extremamente interessante por ser uma planta que não exige técnicas agrículas. Ela aparece naturalmente.

Possui folhas e ramos jovens tenros, com aroma agradável. A parte aérea jovem (folhas, ramos e flores) pode ser consumida em saladas cruas ou cozidas. Também podem ser consumidas cozidas em sopas, misturadas a farofas ou utilizadas no preparo de bolinhos fritos (tempurah) e em sucos verdes com limão ou outras frutas ácidas.[1]

Na Colômbia seu uso como alimentícia é antiguíssimo, talvez de origem indígena. É um ingrediente clássico da sopa bogotana (de Bogotá, Colômbia) chamada “ajiaco”. Neste país é comercializada em jarros (para não murchar!), desidratada ou moída e transformadas em pó verde. Este pó é utilizado como condimento para sopas e carnes, especialmente carne de frango. O suco fresco (suco verde) pode ser tomado juntamente com suco de tomate ou outros sucos.[1]

As folhas cozidas desta espécie são consumidas na região sudoeste da China (Xishuangbanna), obtidas por extrativismo, durante os 12 meses do ano.[1]


Uso Medicinal

Digestivo muito usada em dores de estômago, males do fígado, icterícia e outras infecções do aparelho disgestivo.[6]

O chá de suas folhas, tanto na forma de decocto ou infusão, é usado para o tratamento caseiro de doenças broncopulmonares.[7]

Externamente, suas folhas aquecidas são aplicadas diretamente sobre a área afetada na forma de compressas e cataplasma nos casos de contusão e feridas.[7]


Fontes:
[1]
Plantas alimentícias não-convencionais da região metropolitana de Porto Alegre, RS
http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/12870

[2]
Wikipédia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Galinsoga_parviflora

[3]
Agrolink
http://www.agrolink.com.br/agricultura/problemas/busca/picao-branco_16.html

[4]
PlantaMed
http://www.plantamed.com.br/plantaservas/especies/Galinsoga_parviflora.htm

[5]
Wikipédia: Planta indicadora
http://pt.wikipedia.org/wiki/Planta_indicadora

[6]
Fitoterapia para todos
http://www.ahau.org/indicfitoterapia-0-html

[7]
Plantas Medicinais no Brasil - Nativas e Exóticas
Harri Lorenzi, F.J. Abreu Matos

22 de agosto de 2012

Fazendo Dinheiro para a Comunidade

Por Adrian Rupp

Organização de uma comunidade Parte 3:
Fazendo Dinheiro para a Comunidade
Planejamento estratégico
Legalização de uma comunidade
Terras coletivas


Indice geral:
Parte 1: Economia não monetária, hierarquia, tomada de decisões
Parte 2: Tamanho da população, entrada e saída de membros

Fazendo Dinheiro para a Comunidade

É fácil dizer para quê se precisa dinheiro e difícil explicar porque não precisamos dele diante de pessoas criadas numa cultura capitalista. Mas mesmo com um ideal anti-capitalista é difícil uma comunidade se manter ou se desenvolver totalmente sem dinheiro. A questão que se apresenta é como produzir este dinheiro.

Como já coloquei uma forma é as pessoas trabalharem fora da comunidade e contribuirem. Penso que é bem razoável uma pessoa entregar 50% do seu salário para a comunidade. A maioria da população gasta a maior parte do seu salário com alimentação, moradia, água, energia, e na medida em que a pessoa tem parte destes recursos fornececidos pela comunidade me parece completamente válido uma contribuição de 50% do salário.

Mas vejo apenas alguns membros trabalhando fora, caso contrário a comunidade em si não se desenvolve, o que faz necessário outras fontes de renda:

1 Estratégia dos curso/eventos

Comum em comunidades em formação utilizar sua estrutura para realizar cursos ou eventos e assim manter sua sustentabilidade monetária. Tem um funcionamento bem prático e fácil. Porém tem alguns pontos perigosamente falhos. O problema que vejo mais sério é a diferença entre cliente e possível membro. Quando trocamos dinheiro por um serviço temos expectativas de como será este serviço e estabelecemos uma relação comercial com as pessoas. Tal relação é muito diferente da relação de dádiva que imagino ser o ideal entre membros de uma comunidade. As relação comerciais envolvem cobranças e uma atitude impessoal com o outro. Não creio que haja algo de errado com isso, o problema é que é difícil uma relação de dádiva nascer dentro de uma relação monetária. Ou estamos trazendo possíveis membros novos para conhecer a comunidade, ou estamos trazendo clientes que vão usufruir da comunidade pois pagaram para isso. Claro que para uma comunidade que quer se organizar com relações monetárias entre os membros isso não é um problema, mas numa comunidade que se aproxima de uma comuna, isso atrapalha muito. Além disso, essa fonte de renda é muito vunerável a crises economicas pois as pessoas cortam esse tipo de gasto. Acho que fazer cursos e eventos é importante para qualquer comunidade, mas não acredito nisso como uma fonte de renda recomendável.

2 Agroindústria
Algumas comunidades produzem alimentos e fazem um processamento, produzindo frutas desidratadas, geléias, frutas em calda, etc. É mais complexo desenvolver uma agroindústria do que fazer eventos, mas creio que o resultado é muito melhor. Em primeiro lugar pode-se vender tais alimentos para quem nunca irá visitar a comunidade ou nunca iria contribuir de forma nenhuma para o desenvolvimento da comunidade. Estamos colocando energia no sistema assim. Em segundo lugar tais alimentos e estrutura industrial será útil até mesmo num mundo pós-capitalista. Numa situação de crise a comunidade pode consumir tais alimentos. Observem que a agroindústria comparada com os cursos tem um grande contraste de vunerabilidade econômica. Todo o tipo de crise e situação de contingência irá acontecer ao longo do tempo e em diferentes quadros vejo as comunidades baseadas em cursos desaparecendo e as comunidades das agroindústrias sobrevivendo.

3 Outras ecoindústrias
Quando falo em indústrias aqui me refiro a produção, tanto com o auxílio de máquinas quanto de métodos mais artesanais. O que escrevi da agroindústria também vale para outras 'ecoindústrias': produção de móveis de bambu, bicicletas de bambu, sistemas para a produção de energia limpa, potes de barro, cestaria, brinquedos de madeira, roupas, etc. Nestes casos há um potencial ainda maior de sucesso econômico num mundo pós-capitalista pois poucas comunidades produzem excedentes deste tipo.

4 Produtos primários
Um desenvolvimento que pode ser simples de começar e pode ser a base para uma futura agroindústria é vender itens primários renováveis: alimentos não processados, lenha, bambu, madeira, etc.

Um exemplo: Uma comunidade relativamente isolada, em clima subtropical, sem vocação para o cultivo de trigo, cria uma pizzaria aproveitando a proximidade com um ponto turistico.

Diagnóstico: Alta vunerabilidade econômica.
Sem cultivar o próprio trigo que consome, nem possuindo vizinhos que produzem trigo muito menos farinha de trigo, está totalmente refém das ocilações do mercado de farinha de trigo e de longos transportes para trazer o trigo.
Turismo é sazonal e sensível a crises economicas. As pessoas não gastam com isso quando estão com pouco dinheiro. Algum acontecimento na região pode afastar os turistas ou esse ponto pode ficar para trás na concorrencia com outros pontos que também competem pelos turistas.
A abertura de outro local mais bem preparado pode 'roubar' os clientes.

Qualquer empreendimento que busca produzir dinheiro sofre forte concorrência. Assim para o sucesso é preciso atender muitos requisitos e para o fracasso basta falhar em um.

Alguns pontos que creio que são importantes:
- Respeitar os talentos e limitações das pessoas que estão na comunidade
Criar um negócio que aplica os talentos e experiências anteriores das pessoas.

- Respeitar as vocações e limitações do ambiente da comunidade
Criar um negócio que tira proveito dos recursos renováveis que a comunidade tem ou poderá ter em abundancia.

- Evitar a vunerabilidade diante de crises econômicas
Preferir produzir as materias-primas ou parte delas. Preferir produzir artigos de necessidade em vez de artigos de luxo. Criar um negócio que sobreviva até mesmo num mundo pós-capitalista.

Imagino a participação no negócio da ecovila como sendo voluntária. Até porque vejo os desenvolvimentos não-monetários como sendo mais importantes para a sobrevivência da comunidade. Na primeira parte falei das vantagens da economia não-monetária, e nem cheguei a citar que o império brasileiro fica com aproximadamente 40% do nosso dinheiro, principalmente na forma de impostos sobre o consumo. O dinheiro de fato é uma ferramenta de dominação e cada vez que o usamos estamos beneficiando a centralização de poder.

Planejamento estratégico

No mundo empresarial existe uma ferramenta chamada 'planejamento estratégico'. Basicamente é a definição de valores, metas, slogans, missões, etc. Penso que é válido adaptá-la para a criação de comunidades.

Valores
Acho importante a comunidade tornar consciente seus valores. Valores são as coisas que a comunidade valoriza, tanto pode ser coisas materiais quanto ideais. Exemplos: Meio ambiente, desenvolvimento humano, água potável, honestidade, amor, conhecimento, Jesus Cristo, bicicletas, marijuana, etc. É fácil não dar exemplos suficientemente bons aqui, porque realmente as comunidades podem valorizar qualquer coisa. Assim os fundadores, ou outro coletivo da comunidade defini entorno de 10 valores principais e explica cada um em uma frase. Isso facilita a compreensão das pessoas de fora de como é a cultura da comunidade, o que a comunidade tem como importante ou sagrado.

Missão
Esse item não é tão importante como o primeiro. Pode não se aplicar a todas as comunidades. Diz respeito a comunidade definir sua função diante da realidade maior, seja ela a humanidade, a criação, o planeta, o universo, etc. As comunidades não necessariamente possuem uma missão diante da realidade externa a ela.

Metas
Mesmo no paradigma empresarial é bem complexo definir metas e objetivos. Se são muito ambiciosas nunca são alcançadas e se tornam desistimulantes, se são muito pouco ambiciosas são alcançadas com excessiva facilidade e também se tornam desistimulantes. Saindo da busca por lucro definir metas fica ainda mais complexo. Alvos as comunidades sempre terão: ou querem aumentar a população, ou melhorar a captação de água, ampliar a produção de alimentos, etc. A questão que fica é se há a necessidade de documentar isso tudo. Por um lado pode se ganhar clareza em relação aos desafios que precisamos enfrentar, por outro podemos perder tempo falando de ações em vez de agir.

A Ecovila Tibá parece ter utilizado essa ferramenta:
http://www.ecovilatiba.org.br/site/projeto-missao-visao.html

Legalização de uma comunidade

Esse tema é bastante polêmico. Existe uma série de alternativas: associação, cooperativa, fundação, OSIP, ONG, RPPN, religião.
Penso que a definição está diretamente ligada a como será a posse de terras na comunidade.
Eu não domino esse tema, mas até onde vi, associação ou religião parecem ser as melhores alternativas. OSIP pelo que vi envolve várias vantagens, porém envolve várias exigências. Religião pode dispensar os membros do alistamento militar, dispensar as propriedades de impostos, creio que pode ampliar a autonomia cultural da comunidade. Hoje criar uma religião é mais simples que criar uma associação, cooperativa, etc. porém creio que tais facilidades desaparecerão no futuro.

Cooperativa exige um mínimo de 20 membros e está necessáriamente ligada a atividade monetária.
Condominio hoje tem regras bem rigidas e não vejo como um caminho válido.
Associação me parece mais livre, e pode ser proprietária de terras, o que é interessante para as comunidades que querem ter terras de posse coletiva.
Sobre fundações eu não entendo nada.

Destaco que a comunidade pode possuir mais de uma forma legal.

Quando legalizar?
Para mim o momento em que se destaca a necessidade de legalização é a compra ou coletivização do terreno. Porém, existem questões ligadas ao trabalho das pessoas na comunidade. Já houve casos de pessoas pedindo reembolso pelo trabalho realizado para a comunidade (pelo menos em outros países). Deste modo há uma necessidade de documentação e de legalização para enfrentar esse tipo de ameaça.

Claro que algumas comunidades podem optar por alternativas menos oficiais, principalmente se forem nomades, mas acho que o melhor é evitar o conflito com o sistema vigente e obtar por estabelecimentos mais fixos, enquanto isso for possível.

Terras coletivas

Sou partidário da coletivização das terras da comunidade. Assim cada pessoa seria 'dona' de sua casa e de uma pequena área ao redor apenas enquanto estivesse morando em tal casa. Esse sistema (como todos) tem suas vantagens e desvantagens. Não vou falar das desvantagens porque isso já tá na cultura dominante:
- Melhor para comunidades de economia mais coletiva e planificada.
- Sem risco de uma familia ou individuo vender seu lote e com isso reduzir o território da comunidade.
- Sem picuinhas do tipo: teu lote é melhor do que o meu, só trabalho no teu lote se tu trabalhar no meu, etc.
- Mais concentração das casas e mais espaço para florestas, agricultura e contingencias.
- Casas mais próximas das estruturas de uso comum: refeitórios, oficinas, cozinhas, etc.
- Casas não ficariam ociosas só porque o dono abandonou a casa.

Normalmente o terreno da comunidade é fracionado, garantindo uma recuperação do capital investido na comunidade por um membro que resolve abandonar a comunidade. Mas notem que deste modo o dinheiro do indivíduo é protegido e a comunidade fica desprotegida. Creio que as pessoas devem investir no projeto da comunidade quando possuem laços de confiança e entender o dinheiro investido como não reembolsável. A possibilidade de reaver o dinheiro significa uma possibilidade de um indivíduo enfraquecer a comunidade. Acho ridículo quando as pessoas antes do casamento dizem 'se der errado é só separar', certo que existe o risco de não dar certo, mas é preciso o mínimo de seriedade e não ver isso como uma experiência fútil. Todos estão colocando energia, tempo e capital no projeto, e fica bastante injusto se aquele que colocou energia, tempo, etc. não pode reembolsar seu investimento, mas aquele que colocou capital pode.

Estou colocando o meu entendimento sobre o tema, existem muitas comunidades, principalmente ecovilas, que funcionam no sistema de lotes. Isso é especialmente indicado quando os membros são pessoas que tem posses, justamente conquistaram essas posses pois valorizam isso, mas além disso tem interesse em viver em comunidade. Mas por outro lado, existem pessoas que não tem posses e nem querem ter, possuem outros objetivos que são muito úteis na comunidade.

A questão da posse de terras muitas vezes pode se resumir em uma palavra: segurança. Se eu não gostar da vida nesta comunidade e quiser ir embora é só vender minha parte e voltar para a cidade grande. Mas eu proponho outra abordagem e outra fonte de segurança, adequada ao paradigma comunitário e a um mundo pós-capitalista.

1º Proponho que a pessoa tenha a real dimensão de onde está se metendo antes de fazer uma mudança mais definitiva, como descrevi na parte 2.

2º Proponho que a pessoa que não se adequou possa fazer uma nova transissão, para uma nova comunidade, como também descrevi acima.

3º Proponho relações intercomunitárias baseadas na solidariedade, em outro texto que escrevi, onde todo o trabalho que fazemos por uma comunidade ainda vamos colher quando estivermos em outra comunidade. Assim nada será realmente perdido. É como uma árvore que plantamos para ter frutos, mas o terreno ficou com amigos ou parentes. Talvez nem chegamos a comer algum fruto mas nossos amigos e parentes sim, e no novo terreno que estamos também tem uma árvore nos esperando como a que deixamos para os outros.

4º Proponho uma realidade onde existe muito mais o nosso trabalho do que o meu trabalho. Se pude fazer essa mesa de bambu, porque alguém vez meu almoço, outro colheu o bambu, outro plantou, outro fez a oficina em que trabalhei, outro me ensinou a fazer, etc. Até que ponto posso dizer que a mesa é minha porque fui eu que fiz ela? Simplemente chega um ponto que fica bobo e desperdiça muita energia descobrir exatamente quem fez o quê e quanto mérito teve. De outro modo ainda fica bem mais eficiente se faço com outras pessoas do que se tento fazer tudo sozinho. Claro que todo mundo vai ver que tinha um que tava com a mão na massa e outro que passeava ou só conversava. O problema é que as vezes nós valorizamos muito o nosso trabalho e não vemos o trabalho do outro. E ai surge o sentimento sem sentido: 'fui explorado'.

Conclusão

Existem muitos medos em relação a vida comunitária. Medo de se perder poder, de ficarmos sem nossos queridos vicios. Vamos sim perder algumas coisas entrando na vida comunitária. Mas toda comunidade de sucesso dá uma vida boa para seus membros. Quem entra não quer sair. No império somos mão de obra, máquinas, números. Na comunidade somos pessoas, seres humanos, em tempo integral. Se mudar para uma comunidade é recuperar nossa humanidade.

30 de julho de 2012

Tamanho da População

Organização de uma comunidade 2

Por Adrian Rupp

Resolvi dar continuidade a descrição de minha idealização de uma comunidade já que a primeira parte foi bem recebida.

Tamanho da População

Normalmente se discute bastante o tamanho do terreno necessário para uma comunidade intencional e pouco se discute sobre o tamanho de sua população.

As comunidades no geral não estabelecem metas ou limites neste sentido e creio que algumas acabam desaparecendo por falta de pessoas enquanto outras crescem demais e se tornam cidades.

Acho que temos que ser ambiciosos e ter um quadro completo e rico para onde queremos ir. Comunidades que desaparecem por poucos membros para mim é resultado de falta de um planejamento ambicioso. Planejar a população de modo ambicioso é organizar a comunidade de tal modo que muitas pessoas vão tomar conhecimento da existencia dela e muitas vão sentir vontade de participar dela. Nas comunidades que tem mais população cada membro é como um vendedor que divulga a comunidade, convida para conhecê-la, explica seus valores e funcionamento, para cada pessoa que encontra. Por mais que o interesse seja atrair pessoas, o quadro é pintado com realismo, para não gerar frustrações que vão prejudicar a imagem da comunidade.

Mas não só uma divulgação adequada é necessária para atrair pessoas. A comunidade precisa ser plural. É normal que toda comunidade tenha uma cultura particular e restrita, mas essa especificidade precisa ser equilibrada se ela quiser crescer.

Por exemplo: Vou criar uma ecovila vegana numa região fria e isolada do Brasil que vai trabalhar com educação ambiental.

Uma pequena parcela da população do Brasil está disposta a assumir uma vida vegana. Uma parcela mais pequena ainda está disposta a assumir uma vida vegana e tolera ou gosta de frio. E uma parcela quase invisível da população assumiria uma vida vegana, moraria no frio e não se importa ou acredita que o isolamento é importante. Resumindo, as restrições que se impõe às pessoas são a fórmula do fracasso.

De outro modo é claro não faz sentido criar uma comunidade alternativa se tudo será exatamente igual ao mundo capitalista/ocidental.

Tentando resolver o exemplo, atualmente no mundo ocidental existem pouquissimas pessoas dispostas a seguir o veganismo. Sendo assim é preciso afroxar nos outros aspectos se queremos mesmo apertar neste. Assim melhor é escolher uma região com clima ameno e não tão isolada.

O isolamento é um fator muito importante na viabilidade de uma comunidade. Regiões muito isoladas são boas para comunidades em vários sentidos, mas não para conquistar mais membros. Creio que o ideal é manter algo entorno dos 100Km dos grande centros urbanos. Para que as visitas a comunidade não se tornem epopéias.

No outro extremo temos as comunidades que crescem demais. Elas deixam de ser comunidades e passam a ser cidades com todos os problemas associados a elas: deslocamentos demorados e caros, grande desigualdade de poder, relações impessoais, anonimato, criminalidade, etc.

Na medida em que a comunidade está se tornando populosa demais ela pode simplesmente se fechar a entrada de novos membros.
De outro modo tem ainda o risco de ela passar a ter muito mais bebes e crianças do que adultos para alimentá-los se fazendo necessário o uso de métodos anti-concepcionais autossustentáveis. Existem várias técnicas neste sentido, mas elas costumam ser atacadas e escondidas pois não geram lucro e fazem com que as pessoas tenham mais poder sobre seus corpos e suas vidas.

Mas quantas pessoas deve ter uma comunidade?

Para isso precisamos saber quantas pessoas uma comunidade precisa. Como eu trabalho com a ideia de comunidade autossustentável penso que a comunidade precisa ser grande o suficiente para suprir todas as suas necessidades básicas. E essas necessidades são:
- Alimento para sua população
- Excedente populacional para o caso de uma crise
- Excedente populacional para desenvolvolvimentos sofisticados para além da sobrevivência: Produção de conhecimentos, artes, tecnologias, etc.
- Rica vida social (ninguém ficar enjoado de sempre olhar e conversar com os mesmos)
- Diversidade de genética humana
- Produção de itens estratégicos usados na comunidade: remédios, combustíveis, eletricidade, óleos, produtos de limpeza, etc.

Para mim cada comunidade humana deveria ser uma célula independente, capaz de repovoar o planeta caso seja a única comunidade que sobreviveu a uma catastrofe. O próprio planeta está com seus dias contados. Na dependencia ou interdependência estamos todos condenados ao longo prazo. Nos resta a autosustentabilidade e a diversidade cultural como caminho para sobrevivermos como espécie.

A comunidade precisa ser grande o bastante para que seus membros quando sairem sintam que estão de fora, que estão deixando coisas importantes para trás. Como ocorre conosco quando saimos dos centros urbanos onde estamos enraizados.

Enfim, eu cheguei ao número aproximado de 250 pessoas. Próximos das 1000 já temos os problemas das cidades e com menos de umas 150 não somos capazes de atender as necessidades que coloquei acima. Claro que toda a comunidade intencional hoje em dia começa com uma, duas, três pessoas e assim parece megalomaniaco pensar em centenas, ainda mais se pensarmos na área necessária para abrigar tantas pessoas. Mas acho que está justamente faltando um planejamento ambicioso, já imaginam uma comunidade com umas 5 familias e no fim acaba se tornando mais um sítio ecológico com apenas uma familia.

A área necessária para abrigar centenas de pessoas é grande, mas a comunidade pode começar numa área menor e se mudar quando for necessário. O ideal é começar numa área definitiva mas nem sempre o ideal se encontra com o possível.

Um problema sério que existe é que muitos querem se mudar para uma comunidade plenamente desenvolvida e poucos se tornam parte de projetos que estão apenas começando. Quando um projeto está no nível de ter menos de 10 membros ele precisa ser 100% aberto a entrada de novos membros e dar igualdade de poder para estes novos membros (seguindo o consenso). Precisa ficar claro o quanto o projeto está indefinido e o quanto está aberto para receber novas sugestões e novos caminhos. Neste nível é necessário confiança entre os membros, as pessoas precisam se conhecer realmente antes de se unirem no grupo dos fundadores. Esse conhecer exige algum convivo em comum, não apenas reuniões ou encontros, mas partilhar algumas vezes a comida, o local de dormir, conhecer a pessoa de modo a estabelecer os laços de confiança.

Sobre o assunto também:
http://www.jrrio.com.br/construcao-sustentavel/ecovila-populacao.html


Entrada de novos membros na comunidade


Creio que a entrada de novos membros deve ser gradual, com visitas cada vez mais longas a comunidade e se inserindo de modo lento e sólido. Para quem vive numa cidade, a vida numa comunidade é bastante diferente. Creio que mudanças rápidas tendem a ser mais traumáticas e acabam provocando uma volta ao ponto de partida.

Para mim existem três estágios na mudança para uma nova comunidade:
1º Aqui é o paraiso, estou vivendo onde sempre sonhei viver.
2º Isso não é o que eu queria, não vou viver aqui.
3º Aqui não é o paraíso e não é o inferno, mas é onde quero viver.

Costumo comparar a entrada numa comunidade com uma relação amorosa: Uma paquera que vai avançando até a chegada do casamento ou vida em comum. No inicio da vida em comum todos sentem a empolgação do sonho que se tornou realidade. Porém passado esse momento alto se sucede um momento baixo, de aversão às diferenças entre a idealização e a realidade.

Simplesmente não existe comunidade perfeita, em vários pontos nossa comunidade vai deixar a desejar. Como ocorre nas familias, vamos ter que aprender a conviver com pessoas com que não temos sintonia. Aceitar regras de convivio que nos incomodam.

Esses problemas relacionados a idealização podem reduzir se fazemos uma transição lenta. Assim podemos aos poucos confrontar a realidade da vida comunitária em vez de repentinamente sermos surpreendidos por seus pontos negativos. Claro que existem inesperados pontos positivos na vida comunitária, mas quando estamos no 1º estágio tendemos a olhar os pontos positivos e menosprezar os pontos negativos. Para depois no 2º estágio fazer exatamente o contrário.

Tanto comunidades quanto indivíduos precisam estar cientes deste processo psicológico para superá-lo. Mas é claro que em muitos casos simplesmente não há afinidade entre a comunidade e o indivíduo. Mas na medida em que cresce a diversidade de comunidades, maior é a chance de todos encontrarem sua comunidade.


Saída de membros da comunidade

Há duas formas principais de alguém sair de uma comunidade:
1. expulsão
2. vontade própria

Casos de expulsão são extremamente raros. Ocorrem quando algum membro comete uma falha gravíssima. Diante do desrespeito à regras há sempre alternativas, e a expulsão é a última delas.

Desrespeito à regras da comunidade é um sinal de falta de sintonia entre o indivíduo e a comunidade. Nestes casos pode começar o processo de saída da comunidade, que também pode ser gradual como a entrada.
A comunidade pode apresentar outras comunidades para o membro que está mal ajustado. Este indivíduo pode ser levado junto quando forem feitos encontros para trocas, para poder criar laços com outra comunidade. Na medida em que são apresentadas as alternativas ele pode preferir continuar na comunidade e se esforçar para se ajustar melhor ou entrar noutra comunidade onde se sentirá melhor.

Difícil descrever bem essa questão pois cada caso tem suas particularidades, mas é importante que:
- A comunidade ajude a pessoa a conhecer outras comunidades.
- A comunidade dê o tempo necessário para a pessoa fazer a transição para outra comunidade.
- A comunidade permita um retorno desta pessoa, também gradual e maduro.

Notem que isso só funciona se as comunidades estão buscando se ajudar mutuamente e não estão competindo entre si. Para o indivíduo e famílias, um contexto de colaboração entre comunidades é melhor do que um contexto de competição.

Como coloquei, tudo é transitório, talvez um desajustado de hoje, seja um dos membros mais integrados amanhã, após ter ido para outra comunidade. Portanto é contra producente entrar em conflito e ser agressivo com ele.

Se alguém tem algum problema com o termo 'desajustado': Vida em comum exige um 'ajuste' entre pessoas. Cada um cede um pouco em suas excentricidades para tornar o convivio possível.


Vida em Comum

A grande educação para a vida comunitária, num mundo que abandonou a vida comunitária e adotou uma 'vida estatal', é viver em família. Porém, com o aumento das separações e redução do tamanho e quantidade dos núcleos familiares, ficamos ainda menos aptos a conviver em conjunto. Isso é claro foi provocado por interesses monetários e ameaça seriamente o futuro da humanidade.

Para qualquer jovem que sonha com uma vida mais ambientalmente consciente, viver numa familia onde separar o lixo é o máximo de atitude ambientalmente responsável é algo difícil. Hoje quase qualquer pessoa pode lembrar de dificuldades de convívio com algum familiar. A primeira coisa que vem a cabeça é algo tipo 'ele me prejudicava', 'ele não me respeitava', 'ele(s) fazia(m) de propósito', etc. Resumindo: A culpa é sempre do outro. Quantos podem realmente afirmar que fizeram sua parte para que o convívio desse certo e não retribuiram as hostilidades? O fato é que toda a dificuldade de convívio é uma grande oportunidade de desenvolver a paciência, tolerância, o amor ao próximo, a diplomacia, etc. O que torna as pessoas poderosas é superar dificuldades e não se cercar de facilidades.

Da forma como as pessoas foram educadas pelo império é evidente que em todas as novas comunidades haverão sérios problemas de convivência. Parte da solução está na definição de regras usando o sistema do consenso, onde todos participam de sua construção e entendem o motivo da criação de tais regras. Muitos vão chegar depois, com várias regras já definidas, mas os mais antigos na comunidade podem explicar como chegaram até elas.

Sempre vão haver pessoas que são incompatíveis conosco, acho que não há a necessidade de forçar um entendimento, mas precisamos compreender que a comunidade precisa de muitos tipos de pessoas e não apenas pessoas que nos agradam. Na medida em que a comunidade cresce e as melancias se ajeitam na carroça isso perde importancia gradualmente. Com o tempo podemos apreender a aceitar as limitações do outro, mesmo que não sejamos capazes de nos concentrar nas nossas próprias falhas.

A educação do império nos ensinou muito bem sobre as falhas das familias, os casos de abuso de poder, as relações que se tornam doentias ou viciadas, as divisões de tarefas domésticas desiguais, etc. Na realidade muitos destes casos foram propositalmente provocados por uma educação 'anti-familia'. Basta observar que as soluções apresentadas sempre reforçam nossa dependência em relação ao império: psicólogos, conselho tutelar, polícia, separações, etc. O que ocorre de fato é que os indivíduos são fracos e por isso precisam da familia e as familias são fracas e por isso precisam da comunidade. O estado, que tem relações intímas com as corporações de forma que é impossível distinguir um do outro, quer substituir a familia assim como fez com a comunidade. Da para desenvolver longamente este tema, mas prefiro falar de soluções do que de problemas. O caso é que muitos problemas que ocorrem dentro das familias poderiam ser resolvidos pela comunidade. Mais uma vez estariamos nos empoderando em vez de beneficiar a centralização de poder. Uma familia pode não ter alguém capaz de educar bem as crianças, mas na comunidade haverá. Uma familia pode não ter alguém capaz de resolver conflitos, mas na comunidade haverá. E assim por diante. Foi assim que a humanidade se organizou e em comunidades superou as piores crises ambientais de sua história e conquistou todos os territórios que hoje ocupa.

No consciente coletivo está a ideia de que 'a união faz a força'. Muito se usa essa ideia no ativismo político, mas isso vale muito bem na vida em familia e na vida em comunidade. O convívio morando numa comunidade torna as pessoas mais poderosas.

Continua...

8 de julho de 2012

A Economia do Dom












Por Adrian Rupp

Introdução

É comum a ideia de que o capitalismo é um sistema econômico ruim, mas é o menos pior. Quando o capitalismo é questionado somos sempre lembrados do comunismo da União Soviética, a falta de liberdade e pobreza. Porém o leque de sistemas econômicos alternativos é bem mais amplo.
Para citar um exemplo bem conhecido temos o escambo. 
Para citar um exemplo pouco conhecido 
temos o que vou chamar aqui de 'economia código aberto':
É o mundo da Wikipédia, Linux, hardware livre, etc. Várias pessoas pelo mundo criando, desenvolvendo, produtos e serviços de forma coletiva, e ofertando de modo gratuito, principalmente pela Internet.
Penso nisso como sistema econômico pois vejo que poderia continuar independente do capitalismo, mesmo que hoje esteja tão ligado à ele.
Mas o tema aqui será outro fascinante sistema econômico, provavelmente o mais antigo e duradouro que a humanidade já utilizou: A economia do dom.


O que é a economia do dom?

Imaginemos que minha comunidade tem um excedente de laranjas. Vamos visitar uma comunidade onde acreditamos que não há laranjas e levamos parte deste excedente conosco. Chegando lá, oferecemos as laranjas gratuitamente e elas são aceitas. Quando vamos embora a comunidade nos oferece parte do seu excedente de cebolas gratuitamente que é aceito.
Ocorreu neste exemplo uma troca econômica, porém de forma muito mais livre, sem exigência de contrapartida, sem perda de energia tentando garantir uma troca vantajosa.
Esta é a economia do dom. Os bens e serviços são simplesmente doados. A contrapartida vem, de alguma forma, algum dia, enquanto existir o desejo de retribuir. O presente pode tanto ser algo interessante para o outro, quanto algo que o outro esteja precisando para sobreviver.


Por que funciona?

Em primeiro lugar pelo desejo das pessoas de retribuir o que elas recebem de bom. 
Podemos citar o prazer de doar, que também está presente na caridade, mas  o que
define mais a economia do dom são as demonstrações de gratidão.

Enfim, funciona porque existe no ser humano o sentimento de gratidão.

Também podemos dizer que funciona pela cooperação que produz: Doando e retribuindo torno meus parceiros mais fortes, criando um circulo virtuoso de abundancia. Todos, comunidades e indivíduos, passam por crises econômicas em algum momento. Quem tem mais parceiros tende a sobreviver melhor a estes momentos.


Como funciona

A economia do dom já se manifestou de diferentes formas em diferentes redes de comunidades. 
Vou tentar definir uma forma que acredito que funcione:

- Só é ofertado excedentes. 
Não se liga a sobrevivência da comunidade a esse sistema econômico e se usa para a sobrevivência preferencialmente a autossustentabilidade.

- Não se defini contrapartidas.
Não se defini que tal retribuição deva vir de uma só vez, deva buscar ser maior ou igual ao que foi dado, que a retribuição deva vir num determinado período de tempo ou determinado momento.
No decorrer do jogo econômico o que vai ocorrer é que parceiros que melhor retribuem serão os que receberão melhores doações. Mas a solidariedade estará presente pois ampliar os parceiros aumenta a chance de receber mais futuramente.
Percebam que é uma economia associada à abundancia, enquanto a economia capitalista está associada à escassez.

- Se doa para pessoas ou comunidades conhecidas
Esse sistema não combina com o anonimato. Ele está ligado com relações de fidelidade. Se estamos doando para desconhecidos estamos fazendo caridade.

- Se escolhe bem as ofertas
Busca-se doar coisas uteis para o parceiro. Se descobre que itens o parceiro considera que merecem retribuição e os que ele julga 'fracos' demais para que ele sinta vontade de retribuir. 

- Se aceita um não.
Em muitos casos é mal visto recusar um presente, mas creio que devemos buscar relações suficientemente francas para que a recusa não seja mal vista. 

- Diplomacia
No inicio de uma relação é preciso mais cuidado para que a oferta não seja vista como ofensa ou não provoque problemas para quem recebe. Por exemplo doar um lote de sabonetes pode ser visto como uma forma de chamar um povo de sujo. Doar alimentos de ser visto como chamar de morto de fome ou de pobretão. 
Doar carne para uma comunidade vegetariana seria quase como uma declaração de guerra. Uma comunidade  doa comida muito temperada para outra que usa temperos suaves e temos um monte de comida no lixo ou varias pessoas doentes.
É preciso ter uma ideia de como esse presente será recebido, e isso envolve a questão que já coloquei de se conhecer o outro.
É óbvio que precisamos de uma certa tolerância e clareza para que as relações funcionem.

- Presentes prontos para uso
Não é bom doar bambus cortados para uma comunidade que não tem essa planta pois processar essa matéria prima exige ferramentas e técnicas específicas, e assim a comunidade desenvolveria uma dependência. Doem então os moveis ou objetos de bambu prontos para uso. Não se doa problemas, se doa soluções.

- Consciência de que não dará certo sempre
É curioso como as pessoas tratam os sistemas econômicos alternativos:
Se testam a economia do dom e não obtêm o resultado esperado dizem que o sistema não funciona. Se compram um produto que estraga rápido, dizem que o fabricante é ruim. Podem fazer várias trocas capitalistas frustrantes sem culpar o sistema e basta uma experiência ruim num sistema alternativo para culpar o sistema.
Temos que entender que nem tudo dá certo sempre e mesmo assim funciona.
Existem vários motivos que podem levar as trocas na economia do dom a falharem, como ocorre em qualquer sistema econômico. Na medida em que aprendemos um 'jogo' econômico mais raro se tornam os fracassos.
Como proponho aqui não usar para itens de sobrevivência, a economia do dom não vai extinguir uma comunidade, mas pelo contrário, pode salvá-la.


Possíveis motivos para fracassos

- A oferta foi desvalorizada
Eu vivo numa região onde é fácil produzir laranjas. Se eu oferto laranjas para um vizinho é bem provável que essa oferta seja considerada irrelevante e não produza o desejo de retribuir.
Dar algo que já possuíam, dar algo que não se encaixa por algum motivo às necessidades do outro pode fazer a oferta ser desvalorizada.
As soluções são: conhecer melhor o parceiro, fazer novas ofertas ou ampliar a raridade dos bens ofertados.
Mas é bem provável que algum presente seja menosprezado em algum momento de qualquer maneira. 

- A oferta foi ofensiva
Na medida em que temos um contraste cultural maior com nosso parceiro, maior é a chance de fazermos uma oferta que causa indignação ou repulsa.
Quem faz a oferta precisa entender que cometeu um erro que precisa ser remediado. 
Como possíveis soluções coloco a diplomacia e realizar uma nova oferta, adequando-se melhor às necessidades do parceiro.

- Expectativas frustradas
Muitas expectativas podem se criar: 
- Um parceiro vai continuar mantendo as ofertas que esta realizando.
- Um parceiro vai dar uma grande retribuição já que recebeu uma grande oferta.
O erro aqui está na expectativa.
Alguém poderia dizer que isso mostra como o sistema não é digno de confiança e os outros são melhores. Mas entendam que quanto mais confiamos num sistema mais nos tornamos vulneráveis às suas falhas. 

- As ofertas ameaçaram a sobrevivência
Acho difícil de imaginar isso acontecendo no mundo ocidental, tão ligado a realidade material, consumismo, egoísmo.
Mas por algum motivo, foi doado muito e não houve um retorno que compensasse isso.
Não resta muito a fazer além de pedir ajuda.
Toda a comunidade duradoura tende a passar algum momento de crise econômica independente do sistemas que utilize. E diante desta ameaça é melhor estar num sistema mais solidário.

- O parceiro não sabe como retribuir
O parceiro pode ficar com receio de a retribuição ser insignificante diante da oferta. Pode achar que a outra comunidade é rica demais para que qualquer retribuição seja significativa.
Acho que isso é errado, não precisa ser retribuído de uma só vez, não há um prazo para a retribuição, podemos conhecer melhor o parceiro. Não há comunidade que seja tão rica a ponto de não se surpreender com algum presente que receba.
Quem está na posição de receber a retribuição não tem muito a fazer neste caso. A única medida valida que imagino é realizar uma nova oferta, visando excluir outras justificativas para não estar havendo retribuição.


Boas maneiras

Em primeiro lugar, nunca cobre uma contrapartida. Nem insinue que sua comunidade está esperando uma retribuição. Está é a maior gafe possível. Nem mesmo faça isso se sua comunidade esteja numa situação crítica. Claro que podem pedir ajuda e até devem fazer isso se não são capazes de resolver com meios próprios. Mas não coloquem tal ajuda como se fosse uma obrigação. Não importa o quanto vocês já doaram para a outra comunidade.

Cuidado para não ofender o outro com o seu presente. Busque conhecer o outro e se tiver dúvidas não arisque.

Aceite as recusas de presentes com naturalidade. Pode ocorrer do outro recusar por sentir constrangimento em aceitar o presente instantaneamente. É preciso ter habilidade para distinguir se a recursa é séria ou não.

Retribua os presentes que recebe. Pode parecer bem difícil retribuir ainda mais que o sistema mais comum de economia do dom não dá muito espaço para recusas, e assim fica mais difícil de saber se a contrapartida agradou. Mas faça um esforço e garanta a alegria daqueles que te fizeram bem.    


Conclusão

A economia da dádiva é extremamente poderosa. O capitalismo lembra para mim um casino, onde um jogador ganha, muitos perdem, mais a banca é que sempre se dá bem. No sistema que proponho aqui não há espaço para a 'banca'. Todos os jogadores podem ganhar pois simplesmente não estão disputando a mesma coisa. Isso empodera as pessoas e comunidades e portanto não esperem que os donos do casino divulguem este sistema.

Brinquem com este jogo.

16 de junho de 2012

RAM x SO

Lista de sistemas Operacionais por memória RAM mínima exigida












Por Adrian Rupp

Introdução

Dentro do paradigma do sistema Windows as pessoas normalmente são induzidas a adaptar o seu hardware às exigências do sistema. Isso nos leva a uma informática desnecessariamente cara, a uma baixa autossustentabilidade e a uma grande produção de lixo.
Alternativamente eu proponho aqui fazer o contrário e adaptar o sistema ao hardware que temos disponível. Para isso precisamos conhecer melhor os sistemas alternativos ao Windows.

E com esse conhecimento descobrimos uma liberdade que antes não possuíamos:
- Podemos usar o computador sem disco rígido;
- Levar nosso sistema operacional no pendrive, CD ou DVD-ROM;
- Ficar totalmente livre de vírus e outras pragas digitais;
- Ter um computador antigo super rápido;
- Ter um computador antigo com um sistema totalmente atual.

Está lista está bem longe de todos os sistemas disponíveis, mas creio que pode funcionar como ponto de partida para identificar qual sistema funcionaria para qual computador, mesmo que o computador seja bastante antigo.
Para chegar nesta lista usei o programa VirtualBox.

Memória RAM - Sistema - Mídia
Observações

4Mb - Balder10 - Disquete ou CD-Rom
Baseado no FreeDOS, linha de comando
16Mb - KolibriOS - Disquete ou CD-Rom
Baseado no MenuetOS, em inglês
16Mb - FeatherLinux0.7.5 - CD-Rom
linha de comando
32Mb - FeatherLinux0.7.5 - CD-Rom
Em inglês
32Mb - PuppyLinux5.1.1 - CD-Rom
linha de comando
48Mb - Linux Tiny Core: 4.7.6 - CD-Rom (12Mb)
Em inglês, só editor de textos (.txt)
51Mb - SliTaz4 - CD-Rom
Linux, linha de comando
64Mb - PuppyLinux4.3.1 - CD-Rom
Em inglês
78Mb - PuppyLinux5.1.1 - CD-Rom
Em inglês
102Mb - Slacko 5.5 (Puppy Linux) - CD-Rom
 Em inglês
102Mb - SliTaz4 - CD-Rom
Linux, Só ambiente gráfico mínimo
128Mb - CrunchBang - CD-Rom
Linux, em inglês
128Mb - Kurumin7 - CD-Rom
Linux, nodri nocups noalsa
163Mb - SliTaz4 - CD-Rom
Linux
217Mb - MintLXDE11 - CD-Rom
Linux
222Mb - SalixLive 13 - CD-Rom
Linux, parcialmente em inglês
239Mb - Lubuntu 12.04 - CD-Rom
Linux
256Mb - BigLinux - CD-Rom
283Mb - Xubuntu12.04 - CD-Rom
Linux
512Mb - LinuxMint12 - CD-Rom, segundo requerimentos mínimos informados
512Mb - Ubuntu12.04 - CD-Rom
Linux, segundo requerimentos mínimos informados

Observações:
1. Todos os sistemas listados funcionam em computadores sem disco rígido.
2. Recomendo usar em computadores com no mínimo o dobro da memória RAM mínima exigida.
3. Os liveCDs com sistemas linux podem ser usados para iniciar o computador com pendrives, cartões de memória SD, microSD, etc. usando o programa:
http://www.linuxliveusb.com/

26 de abril de 2012

CD Bicicleta












Por Adrian Rupp

Reuni em um CD informações para ajudar a usar bicicletas de forma mais autossustentável em comunidades.


Lembro sempre que a adoção de bicicletas não é obrigatória para uma comunidade, existe todo um leque de alternativas de transporte autossustentável que merece ser avaliado.

Usei racionamento de mídia, o que significa bastante conteúdo em pouco espaço de memória.

São videos, textos imagens sobre manutenção de bikes, cicloturismo, etc.
Não sei quanto tempo o arquivo estará on-line pois atualmente estamos numa crise de armazenamento de arquivos grandes na Internet.

Tamanho do arquivo:  701,87 MB
Formato: .iso

Link para baixar a imagem de CD:
http://uploaded.to/file/59zqq5e9
clique em 'free download' e espere uns segundos, depois clique em 'donwload starten'.

10 de abril de 2012

Bicicleta autossustentável



Por Adrian Rupp


Introdução

A ideia neste texto é apresentar dicas para que comunidades possam adotar a autossustentabilidade no uso de bicicletas.

Antes de tudo usar bicicletas numa comunidade é opcional. Toda a comunidade necessita de soluções de transporte, mas é preciso avaliar as condições ambientais e custos das alternativas escolhidas. O paradigma ocidental coloca o automóvel como meio de transporte central e o transporte terrestre como principal, porém numa comunidade alternativa não precisamos ficar tão limitados. No geral ao longo da história, comunidades humanas preferiram o transporte à pé ou aquático por sua fácil manutenção, baixo custo, liberdade, discrição e empoderamento humano. De outro modo, a civilização ocidental priorizou a velocidade e o conforto.

Normalmente quando dirigimos um carro estamos perdendo poder enquanto quando andamos de bicicleta, por exemplo, estamos ganhando poder. Um carro exige altos custos que são pagos com várias horas trabalhadas. Enquanto uma bicicleta exige baixos custos e nos ajuda a desenvolver capacidades físicas. Este é o empoderamento que a bicicleta trás. Poderia-se argumentar que o carro trás uma liberdade que a bicicleta não permite. Porém essa liberdade precisa ser comprada e para mim pagar para ser livre não conta como liberdade.

Não sou especialista em bicicletas então certamente meu texto não vai estar tão profundo quanto poderia, mas vou apontar uma direção que pode ser tomada.

Então vamos ao que interessa.


A escolha da bicicleta

Uma bicicleta autossustentável não depende de estradas asfaltadas ou de uma manutenção complexa. Sendo assim nos aproximamos de uma montain bike e evitamos sistemas de suspensão que exigem muita manutenção. Existem também bicicletas que são vendidas no interior, geralmente sem marchas, com manutenção simples e com proteção contra lama e poeira. Aparentemente são mais preparadas para estradas de chão batido, mas tenho dúvidas se elas funcionariam em terrenos mais acidentados. Normalmente elas não usam cabos, que é um item pouco durável nas demais bicicletas.

Creio que o minimo seriam 4 bicicletas: Duas em uso para viagens em duplas e duas sobressalentes para fornecerem peças. A comunidade pode tanto tratar a bicicleta como um bem particular quanto como um bem público do coletivo, ou mesmo ter bicicletas que são do coletivo e outras que são de indivíduos.


A oficina

A oficina é o espaço de aprendizado, trabalho e socialização. Aqui estão reunidas as ferramentas, peças sobressalentes e estrutura para viabilizar o conserto de bicicletas e o empoderamento das pessoas. Claro que numa comunidade nova não conseguimos ter uma oficina exclusiva para bicicletas e usamos a mesma oficina para várias atividades diferentes.

O ponto mais delicado para a autossustentabilidade de bicicletas é o óleo lubrificante. O lubrificante é um item consumível daí a importância de produzir tal óleo. Geralmente os óleos comerciais são derivados do petróleo e são extremamente perigosos para o meio ambiente. O ideal é desenvolver um óleo a partir de alguma planta que seja abundante na comunidade. Infelizmente este tema está muito pouco desenvolvido. Algumas comunidades produzem óleos, principalmente óleo de coco, mas não sei se é viável como lubrificante para bicicletas. Talvez cera de abelhas derretida, mas nunca foi tentado pelo que sei.

Outro ponto delicado são as câmaras das rodas que podem furar facilmente. A manutenção é feita com adesivos especiais, portanto o ideal seria encontrar uma alternativa de manutenção mais autossustentável.

As ferramentas usadas geralmente são duráveis, basta observar as orientações de conservação. Mantendo ainda uma sobressalente podemos passar vários anos sem nos preocuparmos com isso. Existem ferramentas duráveis que são específicas para a manutenção de bicicletas que precisam estar na oficina.


A Saúde

A nossa saúde pode ser afetada pelo uso das bicicletas. É importante cuidar com os bancos duros e os problemas de próstata. Cada um precisa respeitar seus limites físicos para não sofrer com dores no dia seguinte. Uma viagem pode exigir conhecimentos e itens de primeiros socorros. Creio que o ideal é fazer as viagens em duplas. Acidentes sempre são um risco e o melhor é estar preparado. Vejo o capacete como indispensável pois já quebrei um por uma irresponsabilidade minha em alta velocidade e sem ele provavelmente eu não poderia ter voltado à pé.


A informação

Para viagens mais longas se faz necessário informações sobre o percurso. Tais informações podem ser registradas em guias contendo dicas sobre rotas, distancias, tempos previstos, condições de estradas, pontos para alimentação, descanso, socorro, perigos, climas, etc. Estes guias podem ser compartilhados com outras comunidades que também utilizam bicicletas. Pode ser necessário que uma dupla faça uma viagem que nunca vez antes e assim este tipo de guia pode ser vital.


O lixo

Todas as peças da bicicleta precisam receber novas utilidades quando não servem mais em bicicletas. Como já disse em outro artigo, é só uma questão de abstrair o uso habitual e olhar friamente para o objeto e suas características. Um pneu de bicicleta careca é flexível, circular, macio, preto, pode ser usado como brinquedo infantil. Três ou quatro destes empilhados com uma placa grande de vidro cobrindo e com uma panela preta dentro e temos um fogão solar.
Raios estragados são metálicos, duros, dobráveis, podem ser dobrados para virarem brinquedos ou dobrados para ajudar a desentupir ralos de pias. E assim por diante, é só aplicar a criatividade.

Partes de bicicletas são usadas para fazer geradores:
http://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC1698656-4528,00.html

E Máquinas de lavar (dica da amiga Andréa Xavier):
Para lavar ropa, una bicilavadora
http://news.bbc.co.uk/hi/spanish/science/newsid_7926000/7926404.stm
http://www.youtube.com/watch?v=eL3bY6tpkf0


Desenvolvimentos avançados

Existe o nível básico de autossustentabilidade de bicicletas: ter peças e ferramentas sobressalentes, produzir lubrificante e ter pessoas capazes de consertar e de andar de bicicleta.

Mas algumas comunidades podem ir além: construir bicicletas de bambu, produzir peças, produzir ferramentas, etc. e ofertar às comunidades vizinhas por meio da economia do dom, permuta ou moedas locais.

Alguns passo-a-passo destes desenvolvimentos avançados:
How to Build a Bamboo Bicycle
http://www.instructables.com/id/How-to-Build-a-Bamboo-Bicycle/

Bamboo Bike Frame.
http://www.instructables.com/id/Bamboo-Bike-Frame/

How I built a carbon bike frame at home (and a bamboo frame too)
http://www.instructables.com/id/How-I-built-a-carbon-bike-frame-at-home-and-a-bam/

Build a Bamboo Bicycle (And Light it up!)
http://www.instructables.com/id/Build-a-Bamboo-Bicycle-And-Light-it-up/

26 de fevereiro de 2012

Dicas para uma Informatica Autossustentavel




Por Adrian Rupp

1. Produzir eletricidade
É a questão mais importante. A eletricidade pode ser produzida pela própria comunidade e utilizando recursos naturais como os movimentos, o Sol, os ventos, os rios, gazes, as mares, etc. O ideal é possuir mais de uma fonte para situações de contingencia.

2. Fazer a manutenção
Computadores sem manutenção se tornam lixo assim é necessário realizar reparos com o tempo. Tais reparos exigem ferramentas, conhecimentos técnicos e peças sobressalentes. O recomendável é ter mais de uma pessoa na comunidade qualificada para realizar a manutenção e ter no minimo um computador reserva com peças intercambiáveis.

3. Racionalizar o uso das mídias
O racionamento de mídias mudou bastante minha vida. Antes eu gravava um filme de 700Mb num CD e achava que fazia um bom aproveitamento. No fim tinha uma grande pilha de CDs e perdia toda a mídia por qualquer pequeno defeito. O pendrive ou o palmtop sempre pareciam ter muito pouca memória. Hoje meu pendrive parece um canivete suíço digital, assim como DVDs e CDs que gravo. Dificilmente falta espaço no palmtop ou pendrive.
O segredo é simplesmente limitar o tamanho de cada arquivo ou programa a 5% da mídia. Por um lado você limita bastante o que vai guardar na mídia, por outro, vai ter muito mais conteúdo e/ou funções em cada mídia e um pequeno defeito não transformará a mídia inteira em lixo.
Isso é o fim das monoculturas dentro das mídias.

4. Manter backups
Todas as mídias, digitais ou não, são falíveis, portanto se faz necessário fazer cópias de segurança de tudo que for importante.

5. Reduzir a dependência da Internet
A Internet é uma rede extremamente centralizada, o que a torna frágil. Creio que o melhor seria criar novas redes descentralizadas e não hierarquizadas como as redes mesh, mas esse tipo de iniciativa nunca vai partir de governos e empresas que visam explorar o povo. Uma rede realmente livre e democrática só poderá surgir das próprias comunidades. Até lá creio que o ideal e pensar na Internet como uma ferramenta que pode desaparecer a qualquer momento, seja por interesses políticos, panes elétricas, problemas técnicos, aumento nos custos, etc.

6. Usar software livre
A liberdade que o software livre oferece facilita a autossustentabilidade. Podemos
fazer várias cópias se segurança do próprio sistema e iniciar um computador por CDs, DVDs, pen-drives, em vez de ficarmos presos a necessidade de ter um disco rígido funcionando. Algumas comunidades podem se aprofundar e modificar os programas conforme suas necessidades.
Software livre permite também utilizar computadores mais antigos com sistemas mais novos.
E ficamos livres dos vírus.
E ainda a vantagem de reduzir os custos já que é gratuito.
Redução de custos, informática autossustentável e software livre andam sempre juntos.

7. Usar hardware livre
Hardware livre não é uma área tão desenvolvida quanto o software livre. Mas já existem computadores e periféricos livres. A vantagem para a autossustentabilidade é que podem ser fabricados na própria comunidade, e uma vez dominada a fabricação fica fácil fazer adaptações e melhorias.

8. Reutilizar o 'lixo'
Um defeito numa peça pode inutilizá-la definitivamente e ai entra a reutilização. Passamos a olhar para um CD, por exemplo, não como uma mídia mas como um disco duro com um lado reflexivo. Assim ele ganha uma nova utilidade, bem diferente da original. Um exemplo são os cabos flat que viram mini-protoboards.

9. Informática modular
Prefira equipamentos divididos em várias partes, como monitores com cabos que podem ser removidos sem a necessidade de abrir todo o monitor. Informática modular facilita a manutenção e reduz o desperdício de recursos. Ela está associada a preferencia por desktops pois eles são mais modulares que palmtops, netbooks ou notebooks. Normalmente o hardware livre também está associado, já que podem ser montados de modo que cada componente eletrônico passa a ser um módulo também.

10. Tudo Bootável
Muitas vezes ocorre de não podermos usar um computador simplesmente por não conseguirmos realizar um boot nele.
Assim sendo tudo fica mais fácil em situações de contingencia se pudermos fazer o boot com qualquer tipo de midia que tivermos disponível.
Podemos tornar o pendrive bootável com o programa Linux Live USB Creator
E usando o SliTaz que ocupa apenas 30Mb.
O CD, DVD ou Bluray pode se tornar bootável adicionando uma imagem de disquete de boot no momento de sua gravação. A maioria dos programas de gravação de CDs tem uma opção para isso. O arquivo de boot ocupa menos de 2Mb da mídia gravada.
Imagem de boot FreeDOS (Balder)
Imagem de boot KolibriOS (Com ambiente gráfico e programas)


11. Use mini arquivos
Eu chamo de mini arquivos arquivos de imagens ou texto não formatado que ocupam 70Kb. Assim usando o racionamento de mídias tais arquivos são adequados para qualquer midia que possua mais de 1,4Mb de capacidade.
Essa radical leveza permite:
- Rápida cópia de arquivos de uma mídia para outra.
- Ótimo aproveitamento da capacidade até mesmo de mídias com pouco espaço.
- Fácil acesso em diferentes sistemas usando arquivos .txt e .jpg
- Acesso rápido mesmo em computadores muito lentos.
- Transmissão rápida mesmo em redes muito lentas.
- Possibilidade de fazer vários backups sem gastar muitas mídias.
Enfim, usando mini arquivos podemos superar a necessidade de sempre termos computadores mais potentes, sempre necessitar de uma rede mais rápida e termos assim acesso a informações relevantes de forma mais rápida.
Sei que o paradigma atual está nos levando a arquivos, programas e sistemas cada vez maiores e mais pesados, mas está é a necessidade da indústria não a necessidade das pessoas e comunidades.

Várias dicas parecem levar para uma redundância, mas é justamente isso que permite que os problemas sejam solúveis ou solúveis e sem comprometer a independência.
Espero que tenham gostado das dicas e elas ajudem.

25 de fevereiro de 2012

CD Flora




Por Adrian Rupp

Reuni em um CD informações para ajudar a reconhecer plantas alimentícias não-convencionais (PANCs), plantas medicinais, plantas têxteis, plantas tintórias, etc.

São fotos e textos que auxiliam a identificação e uso de plantas e facilitam o aproveitamento dos recursos florísticos disponíveis numa comunidade.

Dei enfase nas PANCs e em plantas subtropicais e tropicais reunindo centenas de fotos que permitem sua identificação.

O conteúdo é extremamente denso e creio que será de muita utilidade para qualquer comunidade.

Não sei quanto tempo o arquivo estará on-line pois atualmente estamos numa crise de armazenamento de arquivos grandes na Internet.

Tamanho do arquivo: 529,50 MB
Formato: .iso

Link alternativo:
http://www.4shared.com/file/dsZZBKN1/SC-Flora.html

15 de fevereiro de 2012

Organização de uma comunidade




Por Adrian Rupp

Passei alguns anos idealizando como gostaria que fosse a organização de uma comunidade intencional. Pensei que por nunca ter sido testado na realidade não deveria ser descrito, mas mudei de ideia. Talvez eu possa apresentar alternativas novas ou pouco conhecidas, ou pelo menos produzir reflexões sobre isso o que já seria interessante.


Tomada de decisões

Existem textos bem interessantes sobre poder e tomada de decisões em comunidades. Basicamente existem algumas alternativas:

- Um líder que toma as decisões:
Pessoalmente não me agrada muito este sistema e ele é em geral mal visto no movimento comunitário. Ele parte do pressuposto de que uma das pessoas tem mais capacidade de tomar decisões do que as demais ou do que a soma das demais. Ele permite uma tomada rápida de decisões mas exige confiança e fidelidade das demais pessoas para que as decisões sejam cumpridas. Pode-se dizer que está na lógica 'poder sobre' e não 'poder com', mas por outro lado este 'poder sobre' só funciona com a autorização das pessoas. Creio que este sistema enfraquece as comunidades pois torna todos muito dependentes de uma única pessoa em vez de desenvolver a liderança e a capacidade de tomar decisões em várias pessoas.

- Eleições e votos:
Pessoalmente vejo este sistema como sujo e medíocre. Mas tentando ser honesto vou apresentar seus pontos positivos também. Este sistema permite rápida tomada de decisões, entrete as pessoas num jogo de competição e ensina elas a usar a criatividade para burlarem regras e vencer a disputa. Sinceramente acho vergonhoso chamar isso de democracia ainda mais se for na forma de uma 'democracia representativa'. Mesmo na esfera comunitária este sistema pode levar a compra de votos, mas o efeito mais prejudicial é formar um grupo de vencedores e outro de vencidos. Os vencedores governam sobre os vencidos e no contexto comunitário isto significa que parte da comunidade pode boicotar decisões ou até mesmo abandonar a comunidade por não concordar com uma decisão. É um sistema que produz desunião, o que enfraquece a comunidade. Porém, não descarto a possibilidade de algumas comunidades encontrarem um caminho de fazer este sistema funcionar, ou o sistema do líder único também.

- Consenso:
O sistema que eu mais simpatizo e que é mais desconhecido das pessoas. Ele parte do pressuposto de que ninguém é dono da verdade, mas que todos possuem uma parcela da verdade. Assim todos precisam ter voz e serem escutados, e destas várias vozes se produz decisões mais aprimoradas. Para cada reunião uma pessoa faz o papel de moderador, para organizar a reunião e garantir que todos poderão se expressar. Um tempo limite é definido para a reunião e caso não se atinja o consenso o tema é levado para uma nova reunião. Como pontos negativos as decisões tendem a ser tomadas mais lentamente, e exige um treinamento por parte da maioria das pessoas que estão acostumadas com o sistema de votos, onde que se impõe uma decisão em vez de construir uma decisão coletivamente. Vejo uma série de vantagens: Várias pessoas são treinadas no processo a tomar decisões, durante as reuniões as pessoas se tornam conscientes do que representa esta decisão em termos de vantagens e desvantagens, e as pessoas se comprometem mais em cumprir com o que foi decidido. Existem vários sistemas de consenso com regras particulares e suas particulares qualidades e defeitos.


Consenso 90 e Participação

Idealizei uma forma de consenso particular. Por diferentes motivos atingir um consenso absoluto é mais difícil que atingir um consenso quase absoluto. Acredito que é suficiente 90% aprovarem a decisão construída. Assim num grupo com 9 pessoas ou menos, comum no início de uma comunidade, haveria a necessidade de um consenso absoluto. A partir de 10 pessoas a decisão poderia ser tomada sem a concordância de uma das pessoas. Claro que o objetivo não é ser excludente, então haveria a intenção de formar o consenso absoluto e aproveitar o entendimento que está presente em cada um, porém, na inviabilidade de chegar numa decisão razoável que agrade a todos, se aceitaria a discordância de 10% dos presentes. Os objetivos são:
1) Impedir que alguém seja capaz de impossibilitar a tomada de decisões;
2) Garantir que o processo não se torne lento demais;
3) Explicitar a afinidade do indivíduo para com o grupo.
Alguém que repetidamente está presente nos 10% é uma pessoa com baixa afinidade de entendimento com os demais. Isso pode significar que esta pessoa está na comunidade errada e o grupo pode ajudá-la a encontrar outra comunidade onde ela seja a maioria. Mas é claro que ser repetidamente parte dos 10% não é crime e portanto estes não deveria sofrer nenhum tipo de descriminação ou convite para se retirar da comunidade. As pessoas que são diferentes da maioria completam as comunidades de uma forma muito especial. Elas estão sempre mostrando o que a maioria não percebe e isso é muito importante. Por outro lado não podemos nós tornar reféns da minoria, tendo que sempre acatar seus caprichos. Sei que não soa bonito falar em qualquer forma de exclusão, mas mesmo numa idealização não posso conceber algo que foge do que conheço da realidade. E vejo como um problema tanto a ditadura da maioria quanto a ditadura da minoria. No caso do contexto comunitário, é mais perigosa a ditadura da minoria que pode engessar ou desestruturar uma comunidade, do que a ditadura da maioria, que pode ser superada facilmente mudando-se para outra comunidade.


Como fazer centenas de pessoas participarem ativamente das decisões

Dentro do ideal democrático existe a assembleia, onde centenas ou milhares de pessoas tomam decisões diretamente. É tudo muito bonitinho na idealização democrática, mas pessoalmente vejo como um sistema bem falho:
1º Não há necessidade de todos decidirem tudo para termos uma boa democracia.
2º Ninguém tem conhecimento sobre todas as áreas.
3º Assembleia exploram o lado mais emocional e irracional do ser humano. Existem técnicas de mover uma multidão para uma determinada decisão. São técnicas sutis e poucos dominam ou conhecem.
4º Assembleias andam com votos. Não tem como dar voz a centenas ou milhares de pessoas numa reunião, a única forma de a assembleia funcionar é com redução de pensamento. O indivíduo é obrigado à se identificar com um dos dois grupos e silenciar seu pensamento particular.

Assim, vejo o ideal da assembleia perigoso, já que pode levar multidões a serem manipuladas e acreditarem que tomaram decisões democraticamente. Porém, cada comunidade é livre para escolher sua forma de organização. E cada forma tem seu conjunto particular de vantagens e desvantagens.

Bem, então estamos diante do grande problema da democracia: Como garantir que o poder esteja com todos?
Já exclui a assembleia como solução válida. Ela garante a participação de todos, porém de uma forma limitada pelo pouco espaço para a expressão do entendimento de cada um e para uma reflexão mais profunda.

A solução que idealizei foi algo tipo grupos de trabalhos: As pessoas seriam reunidas em grupos que decidiriam sobre áreas específicas. Haveria um grupo principal de aproximadamente 10 pessoas que tomaria as decisões gerais da comunidade. Na medida em que a comunidade fosse crescendo formariam-se mais grupos que assumiriam áreas específicas, como por exemplo alimentação, saúde, abastecimento de água, roupas, etc. Deste modo, mesmo uma comunidade com centenas de pessoas, poderia permitir que todos participassem ativamente das decisões.

Por exemplo, se sou um dos fundadores da comunidade, farei parte do seu grupo principal, posso me retirar deste grupo e/ou entrar num grupo temático de acordo com meus interesses e crescimento da comunidade ou permanecer no grupo principal.
Se entrei recentemente numa comunidade antiga, posso me candidatar para um grupo temático ou para o grupo principal. Ou mesmo posso não ter interesse de participar de grupo nenhum.

Para garantir que todos tenham voz é necessário limitar o número de pessoas em cada reunião, mas garantir que haja grupos suficientes que tomam decisões importantes para que todos possam participar. Assim, na medida em que a comunidade cresce o poder do grupo principal se pulveriza em vários grupos temáticos. Não poderíamos permitir que alguém participasse de vários grupos pois isso significaria uma grande assimetria de poder. Cada grupo teria um limite de membros, algo entorno de 14 pessoas. Membros de uma temática poderia assistir reuniões de outras desde que se mantiver em silêncio.

Quando alguma decisão não agrada os demais membros da comunidade, que não estavam na reunião que produziu tal decisão, o membro da comunidade pode se dirigir diretamente aos que estavam na reunião e expor seu ponto de vista. Em contra partida qualquer um que estava presente na reunião é capaz de explicar os motivos que levaram a tal decisão. No fim tal decisão pode ser revista numa reunião futura.

Entendo que nem todas as pessoas tem sempre interesse em participar das decisões e creio que isso deve ser levado em conta. Deve haver espaço para os apolíticos e para os políticos. Mas como a ideia é uma democracia real, não deve haver espaço para alguém conquistar cada vez mais poder sobre os demais. Claro que uma pessoa que não participava de nenhuma reunião e entra num grupo conquistou mais poder, ou alguém que passa a representar a comunidade num grupo exterior. Mas isso é diferente de uma escalada de poder onde alguém pode acabar controlando toda a comunidade ou várias comunidades. Como ocorre no império.

A participação em grupos exteriores à comunidade é importante. É necessário um treinamento específico e é interessante para a segurança da comunidade que várias pessoas tenham a capacidade de representar a comunidade num determinado fórum externo. Isso envolve conhecimento de línguas e do funcionamento particular de cada fórum, reunião, assembléia, etc. Enquanto o Brasil for um império não haverá respeito pelas comunidades e se fará necessário participar de reuniões em câmara de vereadores, assembleias legislativas, comitês, etc., onde vale a lei do mais forte e normalmente o mais forte é o interesse capitalista. Por causa disto muitas comunidades se retiram destas reuniões, mas há também casos de vitórias e respeito à comunidades então participar também pode se justificar.

Enfim, enquanto o sistema de voto explora a competitividade, o sistema de líder único explora o comodismo, o sistema de assembleia explora o emocional, o sistema que proponho explora a racionalidade. Podem contra argumentar dizendo que o ser humano não é tão racional para que este sistema funcione. Mas percebam que não é uma questão de como o ser humano é, mas como o ser humano é induzido a ser. O sistema de voto por exemplo, torna o ser humano mais competitivo, desenvolve em mim a capacidade de impor a minha vontade sobre os demais. No sistema de consenso sou desafiado a entender a vontade dos demais e produzir um entendimento entre a minha vontade e a vontade deles. Talvez a única coisa que podemos dizer sobre a natureza humana é a capacidade de adaptação que temos. Um ser humano pode tanto viver para atender os caprichos de um líder, quanto entrar numa guerra por votos ou se reunir para tomar decisões coletivamente. A diferença é o contexto em que ele vive.

No fim tudo fica mais fácil quando estamos tomando decisões com pessoas que vivem na mesma comunidade que nós. Apesar de parecer que o desequilíbrio é o padrão universal, se observa bastante o fenômeno das melancias que se ajeitam com o andar da carroça. É preciso entender os significados ocultos, como no exemplo do voto. Por trás do sistema do voto está a competitividade, está um grupo de vencedores e um grupo de perdedores. Basta comparar este sistema com outros sistemas para se perceber que não é todo sistema que transforma o poder em disputa. Os significados ocultos aparecem quando colocamos as coisas em perspectiva. Assim, qualquer detalhe da realidade humana pode ser reavaliado e tudo pode realmente funcionar de um modo diferente do padrão.


Economia não-monetária

Antes de tudo é preciso esclarecer uma coisa: Existe a econômia monetária e a economia não-monetária.
Quando uso meu fogão solar isso é uma atividade econômica, estou produzindo recursos econômicos e utilizando recursos econômicos. Mas não estou usando dinheiro. Uma energia que estava livre e solta foi utilizada por mim o que gera riqueza para mim e/ou minha comunidade. Este é um exemplo de economia não-monetária. Por outro lado, posso cozinhar alimentos usando um gás que comprei. Uma energia que estava presa e armazenada foi adquirida com dinheiro produzido com outra energia. Este é um caso de economia monetária, pois envolve dinheiro. Notem minha malícia em ter usado um exemplo em que a economia não-monetária trouxe riqueza para mim e/ou minha comunidade e a economia monetária deixou eu ou minha comunidade próximos do empate. Para quem não entendeu o 'trouxe riqueza': a luz solar estava 'sem uso' na comunidade, mas com o fogão solar ela se torna um recurso e entrou no sistema. O que entra no sistema se torna riqueza econômica. Na real nem fui tão malicioso pois dinheiro dificilmente entra no sistema, ele simplesmente é trocado. Por isso é muito mais fácil ficar rico numa economia não-monetária do que numa economia monetária. E é claro, numa economia não-monetária ficar rico significa ter muitos recursos e não significa ter muito dinheiro.

Claro que posso calcular quanto dinheiro economizei por ter utilizado um fogão solar em vez de usar um fogão à gás. Mas isso não transforma uma economia não-monetária numa economia monetária.

Para enriquecer numa economia monetária normalmente é necessário explorar outras pessoas. Algumas empresas geram lucro explorando os funcionários enquanto outras explorando os clientes. O mercado faz com que a maioria das relações econômicas seja apenas uma troca de 6 por meia duzia. Assim, as pessoas ao longo de suas vidas acumulam bens materiais que trocaram por seus esforços e seus tempos de vida. Apenas perderam algumas coisas para ganharem outras o que é riqueza material, mas de um ponto de vista mais amplo não ganharam nada e nem perderam.

Numa comunidade voltada para a economia não-monetária enriquecer é mais fácil. Usando energia solar estamos adicionando riqueza ao sistema, usando água da chuva estamos adicionando riqueza ao sistema, usando energia eólica estamos adicionando riqueza ao sistema, etc. O trabalho de cada um deixa de ser pulverizado pelo império para se somar na comunidade (Pagando impostos e comprando estamos espalhando a energia do nosso trabalho). Quando trabalhamos para terceiros por dinheiro grande parte do nosso trabalho deixa de ser nosso: parte o terceiro usa, outra parte vira impostos e lucro de empresas. Numa comunidade posso ser 100% dono do meu trabalho: uma parte é minha outra é da comunidade, mas o trabalho de outros na comunidade também é aproveitados por mim e eu sou também parte da comunidade, assim não há perda.
Ficamos mais pobres no império comprando água, comida, eletricidade, transporte até o trabalho, usando celulares, telefones, internet, etc. Todas estas perdas podem ser suspensas numa comunidade autossustentável.


O Caminho Mais Fácil

Esta questão da economia não-monetária, do fogão solar, tantos outros exemplos, mostram que as coisas não são tão difíceis quanto pensamos que são. Na realidade fomos ensinados a seguir pelo caminho mais difícil: viver em cidades, usar eletricidade para tudo, produzir dinheiro em vez de produzir o que queremos comprar com o dinheiro, lutarmos para sobreviver sozinhos em vez de lutarmos juntos, buscar o que está longe de nós em vez de aproveitar o que está perto, etc. Tudo em nome da conveniência do império, embora alguns pensem que o império nós fornece o melhor modo de vida que já existiu.

A agricultura é outro exemplo:
1º Gastamos recursos para destruir a cobertura vegetal incluindo plantas medicinais e alimentícias. Consequentemente o solo fica exposto ao Sol e a chuva tornando-se fraco. Gastamos mais recursos para compensar isso.
2º Gastamos recursos para plantar plantas exóticas não adaptadas ao ambiente local.
3º Fazemos grandes monoculturas que são verdadeiros criadouros de pragas. Gastamos mais recursos para compensar isso.

Acho que nem preciso seguir adiante. O pior é que isso não é apenas o que ocorre na produção de alimentos, mas em cada área que supre as necessidades humanas como saúde, moradia, água, transporte, telecomunicações, etc. E se nota claramente que não é uma questão de falta de conhecimentos ou incompetência, é simplesmente a natureza do império capitalista: quanto mais problemas melhor. O agricultor lá na ponta do sistema de fato não tem conhecimento, ou melhor, não tem o conhecimento libertador. Pode possuir vastos conhecimentos sobre a química do solo, nutrição das plantas, e todo o tipo de informação que estabelece uma forma certa e outra errada de fazer as coisas. E na educação capitalista a forma certa de fazer as coisas é a forma que nos torna dependentes.

Apesar de todo essa cultura de valorizar o caminho difícil e tratá-lo como sendo o único caminho, numa comunidade intencional podemos superar isso, usar tecnologias e conhecimentos que produzem independencia, ensinar e sermos ensinados sobre o modo fácil de fazer as coisas funcionarem. No caso da agricultura existe a agrofloresta e as PANCs, na saúde os vários tratamentos alternativos como a urinoterapia e as plantas medicinais, na energia a energia dos ventos e a energia solar, nos transportes o furoshiki, na informática o Linux e tantos outros exemplos de soluções que tornam tudo mais fácil e ainda ajudam a aumentar nossa independência.

Talvez para alguns acabei de citar um monte de coisas difíceis. De fato para quem está de fora parece difícil, sair de um sistema e entrar noutro exige esforço, porém, depois de se conhecer os dois sistemas e colocando-os lado a lado certamente que agrofloresta é mais fácil que agricultura convencional e assim por diante.


Contribuições Financeiras

Um assunto que gera muita polêmica na organização de comunidades é como cada membro deve ajudar com dinheiro na comunidade.

O primeiro problema que vejo se repetir é tornar o poder monetário um critério de seleção para a entrada na comunidade. Isso é começar absurdamente errado. Participar de uma comunidade não é algo que deveria ser comprável e parte do fracasso de muitas comunidades está relacionado a não saber conduzir esta questão. O que realmente deveriam ser critérios de seleção é a afinidade com os ideais da comunidade e com as pessoas que já participam dela e a capacidade de se adaptar ao modo de vida da comunidade. Só isso já exclui milhares de pessoas e se adicionarmos o critério financeiro fica inviável encontrar pessoas suficientes para a comunidade. Na prática o que ocorre é que o critério financeiro é mantido e os demais critérios que sugeri são menosprezados e assim temos membros pouco comprometidos com o desenvolvimento coletivo e a comunidade tende a ser pobre e acaba por desaparecer.

O segundo problema são as injustiças produzidas quando exigimos um valor fixo de contribuição inicial ou mensal. As pessoas tem diferentes capacidades de produzir dinheiro e também produzem dinheiro em quantidade diferente ao longo do tempo. Dez mil reais é um valor fácil de pagar para alguns, um valor possível de pagar para outros e impossível de pagar para outros tantos. Assim é injusto exigir o mesmo valor de todos.

O terceiro problema é o ideal desumano que tem se disseminado no movimento comunitário, onde só pessoas que podem ser exploradas pela comunidade se tornam membros, excluindo pessoas com dificuldades físicas, mentais ou financeiras. Creio que é ariscado ser contrário a caridade, uma vez que qualquer um pode a qualquer momento necessitar também da caridade alheia.

Por outro lado, normalmente uma comunidade precisa de dinheiro para ser fundada ou mantida. As pessoas se sentem mal quando contribuem para uma comunidade ou fundam uma e outros se tornam parte sem contribuírem na mesma medida. Pessoalmente creio que esse tipo de sentimento não tem cabimento. É ridículo querer que todos contribuam da mesma forma pelos motivos que já expus. A mesma pessoa que hoje é o maior contribuinte da comunidade pode ser um inútil amanhã e vice-versa.

É irônico a preocupação que tem em serem explorados por alguns irmãos, quando estão de fato sendo explorados por milhares de políticos e capitalistas desconhecidos.

Bem, por todo esse quadro que visualizo só resta uma abordagem: A comunidade deve buscar produzir excedente financeiro e econômico e compensar pessoas que trazem baixo retorno. Alguns podem questionar: - Por que os mais 'produtivos' devem sustentar os 'improdutivos'? Eu respondo, porque é isso que nós faz humanos. Não eliminamos um semelhante só porque ele é inútil para nós. E como argumento mais avassalador basta observar as comunidades mais bem sucedidas, tanto indígenas quanto as ocidentais intencionais. Todas elas mantem indivíduos que poderiam ser vistos como inúteis pelo olhar econômico. E em contra partida as comunidades menos 'caridosas' são justamente as mais estagnadas economicamente. Penso que existe uma explicação econômica para isso: os ditos 'inúteis' se somam aos ditos 'úteis' para formar a riqueza social da comunidade. Os seres humanos necessitam de vida social assim sendo mesmo um 'inútil' é um recurso social da comunidade. Outra explicação é a mistica que diz que precisamos fazer a energia fluir e no momento em que paramos de dar iremos parar de receber. Claro que se a comunidade, noutro extremo, for um bando de pessoas que não é capaz de sustentar seu modo de vida ela desaparecerá.

Alguns podem trabalhar fora da comunidade para ajudar na sustentabilidade monetária, e/ou a comunidade pode produzir algo para vender.


Trabalho

Vale lembrar que não há necessidade numa comunidade intencional de separar trabalho de lazer e de aprendizado. Uma pessoa que se exclui das atividades econômicas da comunidade está se excluindo também do lazer, do aprendizado e do convívio social. Pessoalmente acredito que trabalhar é uma atividade prazerosa mas que se tornou uma tortura no mundo capitalista. O capitalismo trata o trabalhador como uma máquina, exigindo horários, produtividade, metas, e repetir mecanicamente ações idênticas durante anos, mesmo quem faz trabalho intelectual. Podemos inverter essa lógica e deixar de pensar 'qual o trabalho a pessoa faz' para pensar 'qual pessoa o trabalho faz'. Em vez de o trabalho ser uma ferramenta para o desenvolvimento de um império, o trabalho pode ser uma ferramenta para o desenvolvimento do indivíduo. Podemos assim usar o trabalho para tornar o indivíduo poderoso em vez de usar o trabalho para tornar o império poderoso. E uma comunidade de indivíduos poderosos é uma comunidade poderosa. E aí vem a pergunta: - Por que então o império não tenta tornar as pessoas mais poderosas também? Simplesmente porque pessoas poderosas não precisam de impérios. Mas pessoas poderosas ou não, precisam de comunidades.

Parte das pessoas no império trabalham para pagarem para fazerem atividades físicas e compensar a falta de atividades físicas que possuem. Para piorar algumas ainda pagam carros e empregados que reduzem ainda mais suas atividades físicas. Isso é simplesmente irracional, mas se explica numa sociedade que se desenvolveu acreditando que atividades físicas estão destinadas à escravos ou pessoas inferiores.

O fato é que para nosso desenvolvimento integral precisamos de atividades físicas e mentais e o trabalho pode nos fornecer isso em abundância. Basta que não dediquemos anos a fazer sempre a mesma coisa e ter sempre as mesmas carências de desenvolvimento. Na minha comunidade ideal posso acordar e decidir ir para a oficina de costura e no dia seguinte ir para a marcenaria, assim por diante, me tornando um ser cada vez mais completo em vez de me tornar um ser cada vez mais limitado.

Deste modo, não vejo motivo para instituir metas de produtividade individual, definir horas mínimas diárias de trabalho comunitário, etc. O trabalho pode ser livre normalmente, com exceção de itens urgentes e trabalhos desgostosos (tipo limpar banheiros públicos), nestes casos é necessário encontrar estratégias alternativas como benefícios aos que realizam o trabalho desgostoso ou fazer um revezamento.


Hierarquia

Outro tema muito polêmico no movimento comunitário. Existe um ideal anárquico que busca acabar com a hierarquia. Pessoalmente acho que a hierarquia é um fenômeno natural. Se estou na oficina mecânica e tem alguém com mais conhecimento que eu lá, é normal que esta pessoa lidere a oficina e se estabeleça uma relação de aprendiz e mestre entre nós. O mesmo para pessoas que estão mais tempo na comunidade, pessoas que tem qualidades mais valorizadas pela comunidade, etc. Por sinal não existe cultura humana sem um ideal de ser humano e nisto já está as origens da hierarquia.

Mas por outro lado, existe a concentração de poder, o abuso de poder, que ocorrem quando a hierarquia se torna exacerbada. Mas creio que o ambiente da comunidade desenhada aqui não é fértil para que isso ocorra. Alguém pode ser o grande mestre marceneiro, mas seu poder vai ficar limitado a marcenaria. Ou indo mais além, alguém é o grande mestre marceneiro e ao mesmo tempo um dos membros mais antigos da comunidade e membro mais influente em um dos grupos temáticos. Imaginemos ainda que nenhum outro membro da comunidade esteja próximo do poder deste. Este seria um quadro extremo, mas ainda assim, as decisões estão pulverizadas pelos grupos temáticos e esta pessoa de fato não alcançou um padrão de consumo diferente dos demais.

Quem você valoriza mais?
A resposta rápida: Para mim todos são iguais.
Falso, só observar comentários do dia a dia ou mesmo que pessoa você está buscando se tornar.
O que se observa por aí: Valorização de pessoas 'bonitas', 'poderosas', com alto padrão de consumo, com títulos reconhecidos pelo império, promovidas nos meios de comunicação de massa, etc.

A sobrevivência de uma comunidade muitas vezes está ligada a valorização das pessoas que mais contribuem. Acho que isso é bonito, justo. O que vejo como feio é as pessoas valorizarem os bem feitores do império que as explora. E lembrando mais uma vez que sempre haverá um grupo mais valorizado, a grande questão é quais são os critérios para definir quem serão estes.

Numa comunidade onde as pessoas tem laços emocionais e convivem juntas a tendência é não haver muita diferença de valorização entre as pessoas. Talvez muitos vão valorizar o grande mestre marceneiro do exemplo anterior, mas a valorização vai ser permeada por critérios subjetivos de cada um, e no fim todos vão ser valorizados.


Finalizando

Deve ter ficado difícil de entender alguns pontos, já que coloco tudo de forma objetiva, e gosto de fazer provocações.
Mas estou aberto para responder dúvidas.

De qualquer forma, tanto na prática quanto na teoria, organizar uma comunidade é uma tarefa de aperfeiçoamentos constantes. Não creio que exista a receita definitiva, que pode ser aplicada em todos os casos.

Existem outros detalhes que gostaria de tratar mais creio que o texto já está longo demais para o padrão Internet.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...